Fui uma criança muito má, cheia de gostos estranhos e sobretudo muito mimada. Hoje não tenho tempo pra isso, embora eu ache que essa rotina cheia só esconde minha vida vazia. Acho que agora sou egoísta demais para fazer mal a alguém deliberadamente, depois que descobri o masoquismo só quero fazer mal a mim mesma, mas continuo machucando os outros mesmo sem querer.
De vez em quando ainda me dá uma vontade irresistível de destruir alguma coisa bela, mas a maldade requer muita disposição e eu tenho preguiça demais.
Mas de todas as minhas maldades infantis, uma era a minha preferida, e eu a cometia amiúde. Eu não podia ver um casulo branquinho numa árvore que o olhava com um sorriso malévolo e o destruía. Pronto, era mais uma lagarta que nunca se tornaria borboleta.
Isso era muito significativo pra mim, pois era como se eu estivesse destruindo um sonho. Eu imaginava que uma lagarta vivia como a escória do reino animal, "roendo" as folhas e rastejando pelos troncos das árvores porque tinha um propósito: toda lagarta quer se tornar borboleta. É um sonho muito ambicioso, mas que para lagarta é perfeitamente viável.
Todo o esforço é compensado com a simples perspectiva de que um dia será bela, colorida, leve, toda sua vida é uma preparação para aquelas 24h de magia.
E então ela enfrenta o claustro do casulo, toda aquela escuridão e a solidão que precedem a derradeira transformação deve ser angustiante. Mas ela ainda considera tudo válido pra se tornar quem já estava predestinada pra ser.
Se ela tivesse um coração, este estaria batendo descompassadamente de tanta ansiedade em deixar pra trás o que nunca queria ter sido para tornar-se quem sempre sonhara, e quando ela estava prestes a se libertar para alçar o seu vôo mais bonito, eu entrava em cena e com o auxílio de um galho qualquer destruía o casulo com lagarta e tudo.
Eu ria sabendo que tudo aquilo que ela passou foi em vão, nunca voaria, nunca seria uma borboleta colorida, não serviria de inspiração para os poetas, nem seria objeto de fascínio para as crianças. Tinha apenas sido lagarta e se escondido no casulo, o que ela poderia ser eu destruí num pequeno esforço.
Eu me considerava mais esperta que as outras crianças também, pois enquanto elas perseguiam inutilmente as borboletas, e por fim as consideravam inalcançáveis, eu as destruía antes mesmo delas poderem voar.
De fato, só agora percebi como eu fui uma criança má, acho que foi por isso que o Papai Noel nunca me presenteou. Mas sobrevivi mesmo sem seus presentes e todas essas ilusões.
Lá no fundo todos querem ser predadores e ninguém quer ser presa.
Depois que descobri o remorso nunca mais destruí os sonhos de ninguém.
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