terça-feira, 1 de novembro de 2011

Eu e minhas duas décadas

     Hoje eu vou postar um textinho que escrevi na fase mais esquisita da minha vida e vou fazer uns comentários sobre minhas breves duas décadas de existência.

     "Minha estrada é escura, sem cor, sombria, e possui uma única fonte de beleza e vida, uma única rosa, vermelha, iluminada, indescritivelmente bela e perfumada. Acredito ter visto também um arco-íris, uma única vez, consistia numa profusão de cores tão bela quanto efêmera.
     Esse é meu mundo, as únicas poucas coisas que são de fato apreciáveis, ou são cheias de espinhos, ou não passam de uma ilusão.
     E o que tenho nas mãos é solidão e breu, me machuquei nos espinhos e mais ainda ao tentar possuir o que é ilusão. Foi assim que aprendi a apreciar a escuridão que permeia minha estrada. De fato aprendo a apreciar a dor quando ela é inevitável, como o poeta que sempre a procura para dar um perfeito acabamento a seus versos." 19/04/2009

     Tá, eu sei que é meio emo, mas traduz muito bem meu ano de 2009, foram 365 que mudaram totalmente a minha vida.
     Eu fui uma garotinha mimada desde sempre, criada com muita disciplina e valores. Eu achava que era especial e que seria o que quisesse na vida, e assim cresci, cheia de sonhos e de certezas.
     Mas 2009 veio para mudar tudo, não sei explicar muito bem porque, mas aos 17 eu descobri que Murph pode muito bem ter razão. Aos 17 Pelé já era campeão mundial, Radiguet já tinha escrito "Com o diabo no corpo", Renato Russo compôs "Faroeste Caboclo" com essa idade, aquelas chinesinhas da ginástica olímpica são campeãs antes dos 15 e eu não sabia o que fazer da vida. De repente eu descobri que não era especial, 30 anos depois da minha morte ninguém lembraria de mim, eu era o mesmo lixo orgânico que o resto do mundo, sem Nobel, sem Oscar, nada de medalhas, prêmios ou destaques, não iria ganhar um carro da Covest e muito menos ser catedrática da Sorbonne, ou seja, a mesma mediocridade que os demais transeuntes com quem esbarrava todos os dias. Eu poderia até chegar lá, mas eu não tinha idéia de onde seria o meu lá. 
     E o fato de ser só mais uma me fez descobri o mundo, comecei a fazer coisas que nunca pensei, comecei a me tornar alguém que não conhecia, me escondi dos espelhos. Todos me viam, mas ninguém me vê de onde  eu me vejo. Perdi pessoas que eu amava e só isso me fez entender o sentido do pra sempre, perdi pra sempre e isso me ensinou demais. Eu cansei de ver Deus refratado pelas lentes doentias da religião e parei de repetir essas rezas sem sentido. Cansei de só obedecer ordens vazias, mas continuei obedecendo mesmo cansada.
     Me senti como aqueles seres da caverna de Platão, vendo a luz do sol pela primeira vez, a dor nos olhos e a vontade de fechá-los deu lugar ao costume de ver tudo iluminado, mas não me iludo, se abri os olhos pra alguma coisa deve tê-los fechado para muitas outras.
     E eu descobri o mundo, mas sei que ainda há muita coisa encoberta. Eu descobri que amizades devem ser cultivadas como plantas. Virei a dor ao avesso e não encontrei a felicidade. Acho que liberdade é um conceito que nasceu só pra ser utopia. Descobri como é bom fazer as pazes com alguém, mas bom mesmo é saber que paz também se fala no plural. Sei que vou errar hoje, amanhã e depois, e que isso é absolutamente normal. Perdi grande parte da minha capacidade de acreditar, mas o ceticismo ainda não é pecado, acreditar demais também não é tão bom assim.
     E sigo aprendendo e respirando meu próprio gás carbônico. Não me machuco mais nos espinhos, pois aprendi que a beleza da minha rosa é só pra ser apreciada, não preciso tê-la só para mim. O arco-íris, sei que vai sumir dentro de alguns instantes, mas isso não me impede de contemplá-lo enquanto ainda está lá.
     Lá se foram 20 aninhos e ainda tenho muito o que aprender. Não tive prêmios? E quanto aos sorrisos sinceros que já suscitei? Quanto aos abraços acalentadores que dei e recebi reciprocamente? Troquei os sonhos por objetivos mas sempre terei algo pelo que lutar. Não preciso saber pra onde vou, só não posso parar de andar.

     Um pouco introspectivo né? Eu e minha auto-depreciação, mas é assim mesmo. Só não ficou bom pq enquanto eu escrevia meu pai e meu irmão, ambos chatos, estavam resolvendo questões matemáticas e discutindo-as bem alto aqui do meu lado.

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