terça-feira, 18 de outubro de 2011

Liberté

  Escolhi como tema da minha primeira postagem aqui no Blog Debalde algo em que tanto penso e que exerce tamanha influência sobre mim ao ponto de eu ter deixado como uma marca eterna no meu corpo, algo que já estava mais profundamente marcado na minha vida.
  Mas antes de tocar diretamente no assunto, quero pedir desculpas às pessoas que estavam esperando a postagem de "10 coisas sobre mim que quase ninguém sabe", é que este texto foi censurado e vão mesmo continuar sem saber.
  
  Eu estava, a alguns dias atrás, cruzando uma das mais belas pontes do Recife enquanto me dirigia a uma de minhas obrigações, especulando sobre amenidades e planejando para um futuro próximo, quando vi uma daquelas aves brancas sobrevoando a maré baixa. Repentinamente passei a acompanhar o vôo daquele pássaro com os olhos, até que me descobri rindo e vi que tinha perdido completamente a noção de espaço, foi quando me surgiu uma infantil pergunta: ele voa por que quer, ou por que precisa? Pronto, era mais uma criança pondo à prova o pueril símbolo da liberdade.
  No mesmo instante reportei-me aos remotos tempos de escola, quando sob influência de Kant, passei a andar com um cadeado no pescoço simbolizando a inexistência da liberdade absoluta. Eu via de forma bem simplista a filosofia de Kant, e adorava quando ele dizia que a nossa visão de liberdade do voo de um pássaro era ilusória, pois o mesmo voava em busca de satisfazer sua necessidades, tendo que se submeter às correntes de ar, sendo-lhe impossível voar no vácuo.
   Mas sem dúvida a visão de liberdade que mais me intrigou, chegando mesmo a roubar-me noites de sono, foi a de Sartre, segundo a qual a existência precede a essência nos seres humanos, desta forma primeira existimos e depois criamos uma essência, sendo que esta é de inteira responsabilidade nossa, pois poderíamos ser qualquer outra coisa, mas se escolhemos ser exatamente o que somos a culpa é inteiramente nossa, em outras palavras, todos nós somos prisioneiros da liberdade tendo que todos os dias escolher quem queremos ser, traçar nosso próprio mapa e refazer nossa trilha.
  A visão de Sartre é angustiante, ser inteiramente responsável por quem se é, pensar que se temos um defeito é porque escolhemos tê-lo, já que poderíamos ser qualquer outra coisa... quanta responsabilidade, e foi por isso que resolvi escrever esta palavra nas minhas costas, não como um leviano anseio juvenil e sim como uma dolorosa constatação da condição humana.
  

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