quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Ensaio sobre a blusa ao avesso

   Antes de mais nada gostaria de dizer aos críticos da minha nova empreitada, que o objetivo do blog está implícito em seu próprio nome. Desta forma, não venho aqui falar sobre a bolsa de valores nem em formas de salvar o mundo. Trata-se de um blog Debalde, no qual venho imprimir minhas despretensiosas impressões do mundo que me cerca e as amenidades que me são tão caras.

  A postagem de hoje, assim como a anterior, é uma justificativa, a resposta a uma pergunta que me foi feita reiterada vezes e até o cumprimento de uma antiga promessa.
   Tudo começou nos meus remotos tempos de Liceu, quando eu ainda tinha minhas pretensões infantis de felicidade e a convicta ambição de mudar o mundo, sem saber que ele nunca desejou ser mudado. E um dia enquanto acalentava esses sonhos pueris, vi meu professor Ledevande com uma camisa que aparentemente estava ao avesso, ao chegar mais perto me decepcionei ao constatar que se tratava apenas do modelo da roupa e que só passava a impressão de estar "errada".
   Mas aquilo deu uma ideia àquela menina, na idade de fazer pequenas loucuras para se afirmar e chamar atenção, então prontamente passei a ir para a escola com a farda ao avesso. Primeiramente eu não tinha grandes intenções com aquela atitude, só o fato de poder estar diferente no meio de tanta gente uniformizada.
   E foi a reação das pessoas que me fez chegar às conclusões que cheguei.
   Primeiramente achavam que eu tinha cometido um erro ao me vestir, e ao perceberem que era proposital, alguns riam e me chamavam de louca, outros criticavam e me chamavam de louca, outros meneavam a cabeça e pensavam que era algum protesto louco, cheguei até a suscitar raiva e indignação em alguns que também me chamaram de louca.
   Só então parei pra pensar um pouco irritada, e me perguntei porque mesmo existindo tanta coisa ao avesso só implicaram com minha camisa. No âmbito da escola por exemplo. Será que ninguém estava vendo a violência, as obras evidentemente superfaturadas, a falta dos professores, o descaso? E tantas milhares de coisas neste mundo que estavam ao avesso, no lugar errado. E só então percebi o âmago da questão, e resolvi continuar a usar a camisa ao contrário para me provar acerca da minha tese.
   Depois de um tempo aconteceu exatamente o que eu esperava, as interpelações nos corredores foram diminuindo aos poucos até que cessaram por completo, os comentários e perguntas acabaram e tudo isso por um único motivo: todos se ACOSTUMARAM.
   Os que riram , que criticaram e até os que se enfureceram, absolutamente todos, simplesmente se acostumaram. E então obtive minha resposta, o mundo é desse jeito porque o que choca hoje é considerado normal amanhã, nós nos acostumamos com a camisa ao avesso, com o político corrupto, com os namorados violentos e com o fato de sairmos de casa preparados pra ser assaltados todo dia.
   Nós simplesmente nos acostumamos com o que está ao avesso,com o que está flagrantemente errado, perdemos nossa capacidade de nos indignar e lutar pelo que achamos correto e fomos tomados por essa quietude e passividade que faz tudo simplesmente continuar como está.
   E depois de tudo isso, continuei com a camisa ao avesso porque achei estiloso mesmo.
   Está aqui a resposta pra quem me questionou, ou só pra quem ficou curioso.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Liberté

  Escolhi como tema da minha primeira postagem aqui no Blog Debalde algo em que tanto penso e que exerce tamanha influência sobre mim ao ponto de eu ter deixado como uma marca eterna no meu corpo, algo que já estava mais profundamente marcado na minha vida.
  Mas antes de tocar diretamente no assunto, quero pedir desculpas às pessoas que estavam esperando a postagem de "10 coisas sobre mim que quase ninguém sabe", é que este texto foi censurado e vão mesmo continuar sem saber.
  
  Eu estava, a alguns dias atrás, cruzando uma das mais belas pontes do Recife enquanto me dirigia a uma de minhas obrigações, especulando sobre amenidades e planejando para um futuro próximo, quando vi uma daquelas aves brancas sobrevoando a maré baixa. Repentinamente passei a acompanhar o vôo daquele pássaro com os olhos, até que me descobri rindo e vi que tinha perdido completamente a noção de espaço, foi quando me surgiu uma infantil pergunta: ele voa por que quer, ou por que precisa? Pronto, era mais uma criança pondo à prova o pueril símbolo da liberdade.
  No mesmo instante reportei-me aos remotos tempos de escola, quando sob influência de Kant, passei a andar com um cadeado no pescoço simbolizando a inexistência da liberdade absoluta. Eu via de forma bem simplista a filosofia de Kant, e adorava quando ele dizia que a nossa visão de liberdade do voo de um pássaro era ilusória, pois o mesmo voava em busca de satisfazer sua necessidades, tendo que se submeter às correntes de ar, sendo-lhe impossível voar no vácuo.
   Mas sem dúvida a visão de liberdade que mais me intrigou, chegando mesmo a roubar-me noites de sono, foi a de Sartre, segundo a qual a existência precede a essência nos seres humanos, desta forma primeira existimos e depois criamos uma essência, sendo que esta é de inteira responsabilidade nossa, pois poderíamos ser qualquer outra coisa, mas se escolhemos ser exatamente o que somos a culpa é inteiramente nossa, em outras palavras, todos nós somos prisioneiros da liberdade tendo que todos os dias escolher quem queremos ser, traçar nosso próprio mapa e refazer nossa trilha.
  A visão de Sartre é angustiante, ser inteiramente responsável por quem se é, pensar que se temos um defeito é porque escolhemos tê-lo, já que poderíamos ser qualquer outra coisa... quanta responsabilidade, e foi por isso que resolvi escrever esta palavra nas minhas costas, não como um leviano anseio juvenil e sim como uma dolorosa constatação da condição humana.